A quem queremos enganar com “NOLT”?
Published by Jorge Henrique M. Cavalcante on
“O novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta.” Foucault
Nas últimas semanas, surgiram discussões sobre um novo termo para identificar um perfil específico de pessoas idosas:
“NOLT”, acrônimo para New Older Living Trend.
O termo em inglês busca nomear quem chegou aos sessenta anos, mas “não parece” ou “não age” conforme o modelo sociocultural que ainda sustenta uma velhice estereotipada, associada à doença, incapacidade, improdutividade, isolamento e solidão.
Como pesquisadores da área do envelhecimento, nosso papel é questionar: a quem interessa esse novo rótulo?
Ao tentarmos distanciar das palavras “velho”, “velha” ou “pessoa idosa”, reforçamos o idadismo: a ideia de que a velhice, por si só, é algo vergonhoso ou que precisa ser “maquiada”.
Usar termos como esse significa:
Silenciar as diferentes velhices:
desconsidera as diversas formas de envelhecer que não passam por um padrão elitista, focado em uma “juventude eterna”.
Reforçar a invisibilidade:
transmite a ideia de que a pessoa só será aceita se “não parecer velha”.
Nesse contexto, a velhice real continua sendo empurrada para debaixo do tapete.
Promover o higienismo da vida:
foca em discursos que reforçam o consumo e estética, em vez de políticas públicas comprometidas com a dignidade, o respeito e a valorização das pessoas idosas, independentemente de sua realidade sociocultural.
A citação de Foucault que abre este texto nos provoca a refletir: será que não é tempo de ressignificar em vez de criar novos rótulos?
E convenhamos, tratando da nossa história, sabemos que de novo não tem nada.
Para isso, não precisamos criar novas categorias que hierarquizem as velhices, reforçando padrões que, ao longo da vida, deixam marcas físicas, psicológicas e sociais muitas vezes cruéis na tentativa de atender a um modelo ideal.
Talvez esta seja uma oportunidade para aprendermos com outros movimentos sociais que já demonstraram a importância de agregar novos valores aos termos que outrora nos machucaram.
Precisamos nomear uma realidade que jamais deverá aceitar uma visibilidade embaçada, aquela que esconde as demandas reais que ainda tornam muitas pessoas idosas vulnerabilizadas.
Por isso, é fundamental assumirmos: envelhecer é um processo político.
Ele ensina diariamente como a sociedade precisa se adequar para garantir uma velhice digna para todas as pessoas.
Não devemos aceitar rótulos que tentam esconder quem nos tornamos com o passar dos anos.
Autor:
Diego Félix Miguel
Membro da CTEGO
Presidente do departamento Gerontologia SBGG SP

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