Manifesto II da Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório
O objetivo da humanidade nunca foi trabalhar
Manifesto II da Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório
No Manifesto I, propus uma pergunta:
E se estivermos discutindo a escala errada?
Hoje proponho um exercício de imaginação.
Imagine que toda a tecnologia do planeta desapareça.
- Sem eletricidade.
- Sem motores.
- Sem tratores.
- Sem computadores.
- Sem internet.
- Sem Inteligência Artificial.
Quanto tempo levaríamos para perceber que precisaríamos trabalhar muito mais apenas para manter o padrão de vida que temos hoje?
Provavelmente poucas horas.
Essa experiência imaginária revela algo curioso.
Quanto mais tecnologia desenvolvemos, menor tende a ser a quantidade de esforço humano necessária para realizar uma mesma atividade.
Agora, observe a direção da história.
À primeira vista, essas invenções parecem não ter nenhuma relação entre si.
Mas talvez compartilhem um mesmo sentido histórico.
- A roda reduziu o esforço para transportar.
- O arado reduziu o esforço para cultivar.
- Os moinhos reduziram o esforço da moagem.
- A máquina a vapor reduziu o esforço industrial.
- A eletricidade reduziu o esforço da produção.
- O computador reduziu o esforço intelectual repetitivo.
- A Inteligência Artificial começa a reduzir parte do esforço cognitivo.
São invenções diferentes, criadas por povos diferentes, em épocas diferentes, mas todas parecem apontar para a mesma direção:
Reduzir o esforço humano necessário para realizar uma tarefa.
Durante séculos aprendemos que o progresso tecnológico servia para aumentar a produtividade.
Talvez isso esteja correto, mas apenas parcialmente, porque produtividade talvez nunca tenha sido o fim. Foi o meio.
O resultado concreto sempre foi outro:
Menos esforço humano.
Talvez esse seja um dos padrões mais consistentes da evolução tecnológica.
Se essa interpretação fizer sentido, uma distinção torna-se inevitável.
Precisamos separar duas ideias que tratamos como sinônimos durante milhares de anos:
Trabalho não é a mesma coisa que trabalho obrigatório.
O trabalho continuará existindo.
Continuaremos pesquisando, criando, empreendendo, ensinando, construindo, cuidando, escrevendo e criando arte.
O que poderá desaparecer não é o trabalho.
É a obrigação de trabalhar para sobreviver.
Talvez seja essa a verdadeira novidade da Inteligência Artificial.
Pela primeira vez, uma tecnologia começa a reduzir não apenas o esforço físico ou intelectual, mas pode inaugurar uma era em que sobreviver e trabalhar deixem de ser sinônimos.
Se isso acontecer, estaremos diante de uma mudança muito maior do que uma revolução tecnológica:
Estaremos diante de uma transformação civilizatória.
Nesse cenário, a pergunta deixa de ser:
“Quais profissões desaparecerão?”
E passa a ser:
O que acontecerá quando trabalhar deixar de ser uma obrigação e passar a ser uma escolha?
Essa é a hipótese que pretendo desenvolver nos próximos manifestos.
Sérgio Araújo
Especialista em Futuro do Trabalho e Inteligência Artificial
Professor, pesquisador e autor de Seja Insubstituível

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