Escala 0×7: a pergunta que ninguém está fazendo
Manifesto I — Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório
Enquanto o Brasil debate a escala 6×1, 5×2 ou até mesmo 4×3, tenho a impressão de que estamos discutindo apenas uma etapa de uma transformação muito maior.
E se nenhuma dessas escalas representar, de fato, o destino do trabalho humano?
Esta é a primeira publicação da Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório, uma hipótese que proponho para reinterpretar a evolução histórica do trabalho e refletir sobre o impacto da inteligência artificial no futuro da humanidade.
Minha hipótese é simples, mas profundamente provocativa:
A história da humanidade pode ser compreendida como uma trajetória contínua de emancipação do trabalho obrigatório.
Desde que nossos ancestrais lascaram uma pedra para facilitar a caça, toda grande inovação teve um objetivo em comum: reduzir a quantidade de esforço humano necessária para viver.
Domesticamos animais para não carregar peso.
Inventamos a roda para não arrastar cargas.
Criamos o arado para produzir mais com menos esforço.
Desenvolvemos motores para substituir músculos.
Construímos computadores para substituir cálculos.
Agora criamos inteligências artificiais para executar tarefas cognitivas repetitivas.
Perceba o padrão.
Nunca inovamos para trabalhar mais.
Sempre inovamos para precisar trabalhar menos.
Durante milênios, o trabalho foi uma condição inevitável para a sobrevivência. Em diferentes momentos da história, essa necessidade também foi apropriada por sistemas econômicos e relações de poder, da escravidão ao trabalho assalariado, cada qual com suas características e contexto histórico.
Talvez, porém, a inteligência artificial represente uma ruptura inédita: pela primeira vez, torna-se possível dissociar, em larga escala, a geração de riqueza da execução direta do trabalho humano.
Se essa hipótese estiver correta, talvez a grande discussão do século XXI não seja qual escala de trabalho devemos adotar.
A verdadeira pergunta é outra:
Até quando o trabalho continuará sendo uma obrigação?
A escala 0×7 não representa uma sociedade sem produção.
Representa a possibilidade de uma sociedade em que a tecnologia produza cada vez mais e os seres humanos conquistem, progressivamente, a liberdade de decidir quando, como e por que trabalhar.
Talvez o maior legado da inteligência artificial não seja substituir profissionais.
Talvez seja libertar a humanidade da necessidade histórica de trabalhar apenas para sobreviver.
Se esse dia chegar, a pergunta deixará de ser:
“Quantos dias por semana devemos trabalhar?”
A pergunta será:
O que faremos com a liberdade que conquistamos?
Continua no Manifesto II.
Sérgio Araújo
Especialista em Futuro do Trabalho e Inteligência Artificial
Professor, pesquisador e autor de Seja Insubstituível

No responses yet